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Ponto de Vista
Ovodoao sob a viso mdica

Joaquim Roberto Costa Lopes, Diretor Clnico do Cenafert, Salvador (Bahia), Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Reproduo Humana e Membro da American Society for Reproductive Medicine
Junho de 2012
Fonte: Boletim da SBRH (Sociedade Brasileira de Reproduo Humana) / Edio de Janeiro, Fevereiro e Maro de 2012.

SBRH - No Brasil, a ovodoao no pode envolver fins lucrativos, e dificilmente algum doa vulos de uma forma altrustica. Como ento as clnicas habitualmente encontram doadoras? Joaquim -Trabalhamos com o Programa de Doao Compartilhada. Quando indicamos FIV em mulher com menos de 35 anos, boa reserva ovariana, visvel estabilidade emocional (no casal) oferecemos a possibilidade de doar metade de seus vulos para uma mulher que ser me apenas se contar com a generosidade de outra mulher. Essa doao s acontecer na vigncia de uma coleta mnima de oito vulos. Quando percebemos nesse casal uma receptividade a essa proposta, o mesmo orientado para uma entrevista com nossa equipe de psicologia. Estando o casal emocionalmente apto, a mulher doadora far exames especficos. Quando a doadora necessita de partilhar os custos do procedimento, a receptora convidada a contribuir no tratamento.

SBRH - Quanto s doadoras, quais exames so obrigatrios para que a mulher possa doar vulos? Os exames de reserva ovariana devem ser realizados?
Joaquim - fundamental uma histria clnica que afaste doenas de cunho hereditrio na famlia da doadora. Independente disso, realizamos ABO/RH, teste de reserva ovariana (FSH, estradiol e contagem folicular na fase folicular inicial) e caritipo em todas as doadoras. Adicionalmente, pode ser solicitado teste falcmico e outros que sejam indicados.

SBRH - O desenvolvimento da vitrificao vem mudando a forma em que so feitos os ciclos de ovodoao? J existem bancos, como os bancos de smen?
Joaquim - Nossa lista de espera de receptoras muito maior do que a disponibilidade de doadoras. Com isso, no temos como formar banco de vulos.

SBRH - Qual o percentual de ciclos de ovodoao feitos na Europa? E no Brasil? O casal brasileiro mais relutante em aceitar vulos doados? Joaquim - No dispomos dos dados que nos informem o montante de ciclos de ovodoao na Europa. To pouco temos os dados exclusivos do Brasil, entretanto, podemos informar que o Registro da Rede Latinoamerica de Reproduo Assistida menciona em seu boletim publicado em 2011 que nos ltimos 15 anos foram realizados 32.633 ciclos de transferncia embrionria com vulos doados. Quanto postura do casal brasileiro - ainda relutante em abdicar da herana gentica para estabelecer sua famlia - tende a se liberalizar. O tema tem sido abordado com freqncia na mdia, especialmente em novelas, o que ajudar a derrubar tabus previamente estabelecidos. Independente disso, a realidade da sociedade atual de postergar a maternidade faz com que cresa o contingente de mulheres que decidem engravidar quando sua fertilidade encontra-se em declnio e a soluo procriativa passa pela doao de vulos.

SBRH - Qual o preparo endometrial que se utiliza nas receptoras? E at quando deve ser mantida a estrognio terapia em caso de gestao? Joaquim - Existem duas maneiras: a) alternativa com uso de vulos frescos - pareiam - se duas mulheres (doadora e receptora) que utilizaro medicaes que visam estimular os folculos nos ovrios da doadora e preparar o endomtrio na receptora. Esta possuindo ainda funo cclica ovariana far supresso prvia com anlogo GnRH e depois espessar o endomtrio com uso de estrognio (oral, vaginal, transdrmico). No tendo mais funo menstrual, a fase de supresso hipfise-ovariana desnecessria e segue com o uso de estrognio. No dia que os vulos da doadora so colhidos, a receptora, por sua vez, deve estar com o endomtrio semi-pronto para receber os embries. Resta ultimar a preparao endometrial com progesterona natural (vaginal, oral ou intramuscular). No quarto dia de uso da progesterona os embries, resultantes dos vulos doados e inseminados com os espermatozoides do parceiro da receptora, so transferidos para o endomtrio receptor, b) alternativa com vulos vitrificados. Nesse caso a doadora colhe os vulos e partilha com a receptora os vulos colhidos. A metade que cabe futura receptora so criopreservados e na poca oportuna, aps preparao endometrial da receptora feita a transferncia dos embries. Tendo a mulher engravidado, o apoio com estrognio e progesterona se mantm at 12 semanas de gravidez. Vale lembrar que o uso de cido flico nunca deve deixar de ser associado como medida antiteratognica.

SBRH - Quantos embries podem ser transferidos para a receptora? E quais as taxas de gestao por ciclo?
Joaquim - A resoluo n 1957/2010 do Conselho Federal de Medicina determina que sejam transferidos um mximo de dois embries para mulheres com menos de 36 anos. At trs embries para mulheres de 36 a 39 anos e um mximo de quatro embries para mulheres acima de 40 anos. Essas normas no disciplinam o nmero de embries a serem transferidos para receptoras. Entretanto, independente da idade da receptora, ao receber embries oriundos de vulos de uma mulher jovem, o nmero no deve ultrapassar dois embries de boa qualidade. As taxas de gravidez clnica giram em torno de 40 a 50% das transferncias realizadas.

SBRH - Por que, habitualmente as taxas de gestao nas receptoras maior do que nas doadoras?
Joaquim - Nem sempre observado isso nas estatsticas. Entretanto, provvel que as medicaes usadas na estimulao dos ovrios das doadoras tenham um efeito negativo sobre o endomtrio, prejudicando assim a implantao embrionria.

SBRH - Consideraes finais.
Joaquim - Uma constatao de cunho sociolgico, presente em todo o universo, nos leva a concluir que a mulher adia cada vez mais seu projeto maternal. As desigualdades de gnero, que levam a mulher a competir em condies desiguais com o sexo masculino, fazem-nas escolher o momento de procriar quando atingem uma maior estabilidade no mercado de trabalho. Nem sempre esse momento o adequado maternidade.
um fato notrio que a fertilidade feminina declina lentamente a partir dos 35 anos e, celeremente, aps os 40 anos. As estatsticas mundiais mostram que cresce o nmero de nascimentos do primeiro filho em mulheres mais maduras.
Infelizmente, nesse momento surgem as dificuldades e as clnicas de fertilidade convivem cada dia mais com mulheres querendo ter seus filhos aps os 40 anos. Muitas vezes o patrimnio folicular nos ovrios j se esvaiu. A qualidade dos poucos vulos colhidos no permite uma gestao com sua prpria gentica, nem mesmo com sofisticadas tcnicas de reproduo assistida. Enquanto a medicina se esmera em descobrir alternativas para reduzir a depleo oocitria na mulher, especialmente aps os 35 anos. Ns que trabalhamos com medicina reprodutiva temos que aprimorar, cada vez mais, as tcnicas de doao de vulos. Sabemos dos conflitos ticos e religiosos que envolvem o tema, entretanto, enquanto a cincia no corrige a desigualdade biolgica que ainda impera, temos que recorrer a ovodoao como medida que possa ao menos devolver mulher o direito reprodutivo que o tempo lhe roubou.


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